sábado, 24 de maio de 2008

Fernando Pessoa/Ricardo Reis


Eu simplesmente adoro Fernando Pessoa, e meu heterônimo favorito é Ricardo Reis. Por isso, exibirei aqui minha dissertação sobre o mesmo.


Ricardo Reis é um dos mais conhecidos heterônimos de Fernando Pessoa, e em seus poemas reflete alguns sentimentos do autor em relação a sua vida. Nasceu na cidade do Porto, em Portugal, e estudou em um colégio de jesuítas. Formou-se em medicina e expatriou-se de Portugal em 1919, quando o mesmo tornou-se república e como Ricardo era monarquista, veio, então, para o Brasil.
Ricardo Reis era latinista e semi-helenista, o que explica seu constante uso de termos latinos e a constante referência aos deuses da Mitologia Grega, já que o helenismo designa-se pelo período da história da Grécia compreendido entre a morte de Alexandre, O Grande, e a anexação das ilhas gregas por Roma. Já o latinismo é o uso do latim e de termos latinos. Escreve, então, suas poesias em Odes, que é uma composição poética que surgiu na Grécia Antiga, e caracteriza-se pelo tom sublime com que trata determinados assuntos, assim como Ricardo Reis faz em suas poesias.
O estilo usado por Reis é o Neoclassicismo, que prega o Bucolismo e o Pastoralismo, ou seja, o contato direto com a natureza e a conseqüente paz de espírito, na tentativa de alcançar o equilíbrio. Demonstra sua angústia sobre a efemeridade da vida e o medo da morte e do envelhecimento, portanto segue os princípios do Carpe Diem, que pregam o aproveitamento de cada dia ao seu máximo. Exemplos de Carpe Diem são percebidos nos versos: “Assim façamos nossa vida um dia / Inscientes, Lídia, voluntariamente / Que há noite antes e após / O pouco que duramos.”, “Como se cada beijo / Fora de despedida / Minha Cloé, beijemo-nos, amando.”. No primeiro trecho também percebe-se a questão da efemeridade da vida, bastante utilizada por Ricardo Reis, também observada em: “Coroai-me de rosas, / Coroai-me em verdade / De rosas - / Rosas que se apagam / Em fronte a apagar-se / Tão cedo! / Coroai-me de rosas / E de folhas breves. / E basta.”. E também a forma como trata a juventude e a chegada da velhice: “Já sobre a fonte vã se me acizenta / O cabelo do jovem que perdi. / Meus olhos brilham menos. / Já não tem jus a beijos minha boca. / Se me ainda amas, por amor não ames: / Traíras-me comigo.” Onde ele deixa claro que o jovem que era, se perdeu com a chegada da velhice, e ele já não se parece mais com si próprio.
Ao analisar as poesias de Ricardo Reis, nota-se nitidamente que o autor exalta o fim inexorável de todos os seres vivos, que é a morte, e também a efemeridade da vida, a busca de estratégias de limitação do sofrimento, entre outros. E ao ligar tais fatos a um filme, encaixa-se nesse perfil, o filme “Um amor para recordar” de Adam Shankman. O filme conta a história de um jovem sem limites, Landon Carter, que como punição por seus atos de rebeldia é obrigado a fazer parte da peça da escola. Lá conhece Jamie Sullivan, uma garota excluída que o ajuda a estudar. Os dois se apaixonam, começam a namorar quando ele descobre que ela é portadora leucemia. Então o protagonista faz de tudo para que sua amada seja feliz e tenta mascarar sua morte inevitável fazendo-a aproveitar o máximo de cada dia e tenta realizar todos seus desejos antes de sua morte.
O fato de o protagonista tentar iludir o sofrimento, a brevidade da vida devido à doença da personagem, a morte inevitável e inclusive o carpe diem visto nas atitudes de Landon, demonstram características encontradas nas poesias de Ricardo Reis. Quando Ricardo Reis escreve: “A flor que és, não a que dás, eu quero.”, exalta o amor pela pessoa em si, não pelo que a pessoa pode oferecer, que é o que acontece no filme, quando o protagonista ama sua parceira pelo que ela é, abdicando de sua liberdade e popularidade para ficar com a amada.
Aspectos da história de Fernando Pessoa são perceptíveis nas poesias de seu heterônimo Ricardo Reis. Ao fazer uso constante da efemeridade da vida e da morte inevitável, conduz ao fato de seu pai e seu irmão terem morrido tão cedo. O autor também escreve diversas vezes sobre a incerteza do futuro, o que nos remete ao fato de Fernando Pessoa ter tido uma juventude repleta de mudanças de casas e de países.
Apesar de ser latinista e semi-helenista, a formação em escola religiosa mostra o lado católico de Ricardo Reis, que cita inúmeras vezes, em suas poesias, Lídia, que na história, foi a mulher que acolheu Jesus Cristo, quando o mesmo fugia, e uma das primeiras cristãs do mundo, que propagava fielmente sua religião. Por ter sido criado pela avó grande parte de sua vida e ser órfão de pai, Fernando Pessoa sentia-se sozinho e ficava horas refletindo, então, existe a possibilidade de invocar Lídia em busca de acolhimento. Reis também cita diversas vezes Cloé, que foi uma jovem que vivia no campo, em harmonia com a natureza e sob a benção dos deuses, fatores que se encaixam em seu estilo.
Fernando Pessoa é considerado por muitos um enigma. E a criação de diversos heterônimos gera um enorme interesse em torno desse autor, que até hoje, é estudado e admirado por inúmeras classes e pessoas.

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